Egito: Dia 1 – uma viagem interminável

O primeiro dia de viagem, a ida até ao Egito, foi interminável. Três voos, entre Lisboa e Luxor, com escalas em Madrid e no Cairo. Sabia que ia ser muito cansativo, mas orgulho-me de só ter cedido ao cansaço, dormindo, no último dos três voos desse dia.

Às quatro e meia da manhã, porém, o sentimento era o oposto desse cansaço. A excitação e o nervosismo por uma eventual perda de malas nestes voos todos dominavam os meus pensamentos. E as alegadas excessivas burocracias da Easyjet, companhia low cost com a qual iria viajar pela primeira vez, também. Rumámos ao terminal 2 do aeroporto da Portela, para fazermos o check-in do voo de Lisboa para Madrid e optámos justamente por essa low cost porque a tarifa era a mais barata quando comparada com a TAP, Iberia ou Air Europa e por esta ter concentradas as suas operações no terminal 1 de Barajas, em Madrid, o mesmo da Egyptair. Infelizmente, esta companhia aérea já não voa directamente para Portugal como em tempos, pelo que a solução foi recorrer a esta escala. O terminal 2 só processa partidas de low costs (Easyjet, Germanwings e Transavia). As chegadas ainda são feitas recorrendo ao terminal 1. Tem apenas uma vantagem: nós vamos a pé para entrar no avião.

Terminal 2 de Lisboa | D.R.

Voo da Easyjet, no terminal 2 do aeroporto da Portela, em Lisboa | D.R.

O embarque na Easyjet foi fácil, apesar da confusão que se gera devido ao Speedy Boarding e à possibilidade de escolha de lugares no avião. Actualmente, a companhia aérea já disponibiliza, por mais quatro euros, a reserva antecipada do lugar, mas esta opção ainda não existia na altura em que adquiri os bilhetes. Pouco depois da hora prevista, 7:20 da manhã, o avião, um A319/20, descolou da pista e em 50 minutos aterrava ali ao lado, em Madrid. Eram 9:15 da manhã, hora local.

Interior de avião da Easyjet | D.R.

Como não conhecíamos o terminal 1 de Barajas, acabámos por recolher as bagagens e seguir para a zona da “Consigna”, um local onde os passageiros deixam as suas bagagens quando estão em trânsito. O nosso voo para o Cairo só partiria às 14.50, pelo que ainda tínhamos mais de 5 horas de espera pela frente. O local está situado logo em frente ao terminal: passa-se por um estacionamento e depois de pagar 5 euros, o depósito é efectuado. É só seguir as placas “Consigna”.

A caminho da Consigna

À espera para guardar as malas, Barajas

A decisão viria a mostrar-se, contudo, insensata, porque a Egyptair permitia o check-in muito mais cedo do que o habitual. Quando soubemos que os balcões estavam já abertos, optámos por ir buscar de novo as malas e fazer o check-in directamente para Luxor, via Cairo. Tomámos a opção porque na zona dos balcões de check-in, Barajas não tem absolutamente nada para entreter os passageiros: não tem cafés, não tem sequer bancos para que nos possamos sentar. E para acedermos às lojas do terminal, teríamos de fazer o check-in e entrar para o complexo das salas de embarque. E assim foi feito. Fizemos tempo no local, vendo as lojas de recuerdos, os cafés/restaurantes, as exposições em Barajas, lemos livros… Um tédio. Decidimos ainda almoçar enquanto esperávamos.

O nosso avião da Egyptair, Boeing 737-800 | D.R.

Depois da refeição, embarcámos no voo da Egyptair em direcção ao Cairo, que saiu ligeiramente atrasado. O tempo que percorremos entre a mangueira em que o avião estava estacionado e a pista em que iria levantar voo pareceu-me enorme. O avião era um Boeing 737-800. A bordo, tudo correu pela normalidade, tirando a antipatia das mulheres da tripulação da companhia, que faziam frete para atender os passageiros. Uma delas tinha carregado de tal modo na maquilhagem que o batom, cor-de-rosa vivaço, tinha-lhe pintado um dos seus dentes. Hilariante e, simultaneamente, horroroso. Acabámos por jantar a bordo, deviam ser umas cinco horas da tarde, enquanto a rota nos levava sobre o Mediterrâneo: passámos ao pé das ilhas Baleares, da Argélia, da Tunísia e de Malta, entrando depois em espaço aéreo egípcio. O voo demorou 4 horas e meia.

Quando começámos a aterragem, à noite, tive pela primeira vez um baque na viagem. O Cairo apresentava-se imenso e, no horizonte, a cidade parecia não ter fim. Era um emaranhado de luzes e mais luzes e uma enorme mancha de poluição por cima de uma cidade que não tinha limite. Pelo menos, a minha visão não conseguia vislumbrar o seu fim.

Aterrámos no terminal 3 do aeroporto do Cairo, totalmente dedicado à Egyptair. Novinho em folha. O guia da agência local, um árabe enfastiado provavelmente pelo nosso atraso, recebeu-nos de forma brusca e queria porque queria obrigar-nos a sacar libras egípcias antes de embarcarmos, pela terceira vez, naquele dia, num novo voo. E esse momento foi uma confusão: os equipamentos eram ultra-mega antigos, os seguranças e profissionais não primavam pela simpatia e o sistema de controlo era de tal modo obsoleto que os profissionais da companhia escrevinhavam o nome dos passageiros e seus passaportes ainda à mão, sem acesso ao computador.

À espera do voo para Luxor, aeroporto do Cairo

Enquanto esperávamos por esse voo, dois egípcios encaravam-nos de cima abaixo. Um deles, com phones nos ouvidos, entoava cânticos na língua local tão alto, mas tão alto, que me faziam corar quando as pessoas olhavam em nossa direcção.

Entre voos

O voo para Luxor, também operado pela Egyptair, ia cheio, mas cheio mesmo. E era quase tudo gente proveniente do meu voo anterior. Acabei por adormecer, mas não tive lá muito tempo para descansar porque cerca de uma hora depois já tínhamos chegado ao nosso destino final: Luxor. Eram 23.30 (hora local, mais duas do que em Portugal).

À saída do aeroporto, e depois de conhecermos o nosso guia e o transfer que nos ia levar até ao navio (a nossa casa no Nilo nos próximos três dias), tive o primeiro choque cultural: os egípcios locais aglomeravam-se à entrada do aeroporto a pedir-nos esmola. Uns estavam descalços, outros sujos que nem bréu, outros dormitavam no jardim em frente ao aeroporto. Uma lembrança que acho que não vou conseguir esquecer.

E, no caminho para o navio, esse cenário desolador adensou-se: as pessoas deslocavam-se descalças à noite ao pé das estradas e pareciam caminhar sem destino, vi gente a dormir em palheiros junto da sua televisão, casas sem tecto e lixo, muito lixo. E tudo isto de noite, já em Luxor, a caminho do navio. Quando ali chegámos, estávamos tão cansados que acabámos por ir para o nosso quarto-camarote, onde adormecemos imediatamente, sem sequer ter reparado muito bem no local onde iríamos ficar alojados. O descanso, porém, iria ser pouco nessa noite…

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About Desporto: viajar

Jornalista de profissão, devorador de viagens por paixão. Sempre que me quiserem encontrar, vou estar por aí.

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