Egito: Dia 9 – Alexandria, da prosperidade ao declínio

Alexandria, a segunda maior cidade do Egito, já não aparenta ter a prosperidade que tão bem a caracterizava na época de Alexandre, o Grande, em 332 a.C., e que a levou a rivalizar com a grande Roma. A cidade está em declínio e pouco resta da magnificência desse tempo. Mas é injusto a maioria dos turistas deixá-la de fora do seu circuito no país, tendo em conta que a cidade é, do meu ponto de vista, a mais parecida com as suas congéneres mediterrânicas europeias, graças aos seus 20 belos e longos quilómetros de costa banhada pelo Mediterrâneo. Alexandria não tem a paisagem desértica que procuramos no Egito, mas pode surpreender pelo cheiro a maresia e pelo bater violento das ondas na orla costeira. Não tem vestígios da civilização egípcia como pirâmides ou esfinges, mas dá as boas-vindas com templos e outros artefactos da época áurea greco-romana. E não tem um qualquer museu que seja digno de ser visto. Mas tem a biblioteca mais conhecida em todo o mundo. Então, porque não conhecer Alexandria?

Perspectiva geral de Alexandria, banhada pelo Mediterrâneo

Perspectiva geral de Alexandria, banhada pelo Mediterrâneo | D.R.

Desde que planifiquei a minha viagem ao Egito sabia que se queria conhecer a cidade teria de estender a minha permanência no país por minha conta. E assim foi. O segundo dia que fiquei a mais do circuito inicial passei-o em Alexandria e não me arrependi. Mas como só tinha um dia, joguei pelo seguro: contratualizei uma agência turística local, a Ramsés Tours, da qual tomei conhecimento no Trip Advisor. Ela tinha excelentes comentários e, depois de visitar o seu site oficial e de constatar o que ofereciam no pacote, acabei por fechar a excursão. Saiu do meu bolso por 85 Dólares Americanos, mas o tour incluída a viagem de ida e volta em veículo privativo desde o Cairo a Alexandria (220 quilómetros), motorista e guia turístico privados e entrada gratuita em todos os principais monumentos da cidade.

Localização de Alexandria no mapa do Egito | D.R.

Rumámos às 8h da manhã do hotel em que estávamos instalados no Cairo para Alexandria, pela grande auto-estrada do norte. O caminho, apesar de ser o melhor que conheci no Egito, não pode ser comparado às auto-estradas portuguesas porque sofre dos mesmos problemas viários do país: excesso de tráfego, pessoas em contra-mão, buracos no meio do nada, infra-estruturas e outras pontes inacabadas… E os portageiros, que recebem o dinheiro antes de entrarmos na via, não têm ao pé de si um qualquer sistema electrónico como na Europa. Apenas uma mesinha e uma cadeira, com uma caixa de madeira e um conjunto de notas e moedas locais que trocam com todos os passageiros… Tal como se imagina, à boa maneira dos mercadinhos tradicionais.

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Portajeiro, a caminho de Alexandria

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Chegada à cidade

Confesso que a chegada à cidade, de mais de 3 milhões de pessoas, me fez pensar que todo o investimento tinha sido em vão. Lixo por todos os lados, poeira, muita população e algum trânsito infernal em algumas artérias da cidade. Mas a chegada à coluna/pilar de Pompéia mudou esse sentimento. Era a Alexandria que tinha visto em cartões-postais, aquela que ansiava por conhecer.

Chegada ao Pilar de Pompéia, Alexandria

Chegada ao Pilar de Pompéia, Alexandria

O Pilar de Pompéia fica num dos bairros pobres de Alexandria, o Karmous, que esconde a grandiosidade do monumento. Feito em granito vermelho de Aswan, o pilar tem 27 metros de altura e foi erguido por volta de 297 a.C., em homenagem ao imperador romano Diocesano, fazendo parte do outrora bonito templo de Serápis. O nome vulgar do pilar, coluna para outros, pode dever-se ao facto de muitos viajantes pensarem que o general romano Pompeu, que morreu neste país, foi aqui enterrado. O pilar é tudo o que resta de um templo que foi  um importante depósito de textos religiosos e sucursal da outrora biblioteca de Alexandria. Esse templo foi destruído pelos cristãos em 391 d.C.

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Perspectiva do complexo onde está inserido o Pilar de Pompéia

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O pilar, bem mais de perto

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Outra vista do complexo

Magnificiência

Magnificiência

Após a visita, seguimos viagem para o anfiteatro romano de Kom al-Dikka, descoberto em 1965, em pleno centro de Alexandria, quando um projecto de habitação aplanou as ruínas de um forte napoleónico. Conhecido como Kom al-Dikka (Monte de Cascalho), o anfiteatro é composto por várias filas de 13 degraus de mármore. Na origem, o anfiteatro serviu para as artes teatrais, mas acabou por crescer tendo sido alterado para receber o Conselho Municipal. Em frente ao anfiteatro, é possível ver-se ainda mosaicos romanos no chão. No local, há ainda uma série de outras escavações arqueológicas a decorrer: no norte, ficam as bacias e canais que mostram como a água era levada através do sistema de aquecimento para as piscinas revestidas em mármore; a leste fica a área residencial. Destaque ainda para uma pequena exposição no interior do complexo do anfiteatro onde diversos artefactos arqueológicos, encontrados numa escavação subaquática perto do forte de Qaitbay, se encontram ao ar livre.

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Perspectiva do ‘Monte de Cascalho’, como infelizmente lhe chamam

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Belíssimo anfiteatro

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Mosaico romano

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Zona das escavações arqueológicas, em pleno centro de Alexandria

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Fotografias no museu ao ar livre

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Vestígios descobertos

Depois de dois monumentos super culturais, percorremos toda a Corniche de Alexandria e vimos a maior parte dos seus 26 quilómetros de costa. É uma pura cidade mediterrânica com uma grande avenida panorâmica, ladeada de um lado por vastos edifícios e prédios, e um conjunto monumental de serviços como cafés, shoppings e afins, e do outro pelas praias, restaurantes e os bares. E há veraneantes a passearem-se no local, ainda que com algum resguardo para não ferir susceptibilidades entre a população local. É que apesar de banhada pelo Mediterrâneo, Alexandria ainda é puramente egípcia no seu viver. Acabámos por chegar depois ao luxuoso e privativo Palácio Montazah.

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Jardins luxuriantes, Montazah

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Finalmente junto ao mar, depois de vários dias metido pelo meio do Egito

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Mamoura

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Mamoura e praias semiprivadas

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Palácio Montazah

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Belo, não?

Situado entre vastos jardins e vistas extenuantes da costa mediterrânica da cidade, o palácio oferece uma inebriante combinação entre a arquitectura turca e florentina, tendo a torre central do edifício sido inspirada no Palazzo Vecchio, de Florença. O palácio está, infelizmente, encerrado ao público, mas o local não deixa de oferecer praias luxuriantes e semiprivadas onde é possível descansar. Destaque para a estância balnear privada, Mamoura, onde o código de etiqueta não é exigente (se é que me faço entender) e a areia é muito limpa.

Simulação de como seria o antigo Farol de Pharos, ou farol de Alexandria | D.R.

Simulação de como seria o antigo Farol de Pharos, ou farol de Alexandria | D.R.

Depois do almoço, passámos por dois outros locais importantes: o forte de Qaitbey e a mesquita de Abu al-Abbas Mursi, situada no bairro Otomano. O primeiro assemelha-se a um castelo em miniatura ao longe, mas que se impõe mais de perto. O forte foi construído em 1480 no local do antigo farol de Pharos, que se acredita ter sido uma das sete maravilhas da antiguidade. No interior, os destaques recaem sobre uma pequena mesquita, a mais antiga da cidade, e no museu naval, onde artefactos de navios naufragados na zona se encontram em exposição. Uma passagem pelo bairro otomano de Alexandria permitiu ainda ver a mesquita de Abu al-Abbas Mursi, completamente desenhada ao velho estilo andaluz. Uma combinação exótica, mas de efeitos inigualáveis.

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O belo Forte de Qaitbay

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Forte de Qaitbay

Mesquita de Abu al-Abbas Mursi

Mesquita de Abu al-Abbas Mursi

Perspectiva geral da Biblioteca de Alexandria | D.R.

Perspectiva geral da Biblioteca de Alexandria | D.R.

Mas o fim da visita a Alexandria estava reservado para o melhor: para a sua biblioteca. O actual edifício, que é uma imponente obra de arquitectura, foi inaugurado em Outubro de 2002 depois de um incêndio ter destruído o edifício original, que já era tido desde o séc. III a.C. como o maior do género em todo o mundo. A actual infra-estrutura contém um planetário e um museu da ciência. Mas o ex-libris, a parte da biblioteca, reserva para si a maior parte da nossa estupefacção, não estivesse ela num edifício que é completamente cilíndrico. A parede exterior é de granito de Aswan e tem gravadas letras de todos os alfabetos do mundo. Já o telhado, envidraçado, desce vertiginosamente em direcção ao mar, tendo sido disposto de forma a que a luz do dia se dirija para os mais de 2 mil lugares da sala de leitura. A biblioteca tem capacidade para acolher 8 milhões de volumes. É possível visitar o local usufruindo de uma das visitas guiadas oferecidas a cada 15 minutos, nas mais diferentes línguas. Destaque, durante a visita, para a explicação detalhada em torno da máquina fotocopiadora de livros mais rápida em todo o mundo.

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Parede exterior da biblioteca de Alexandria, com escritos de todo o mundo

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Interior da recepção da biblioteca

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Explicações durante a visita guiada

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A fotocopiadora mais rápida do mundo

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Pátio da biblioteca, antes de entrar na sala de leitura

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Simplesmente magnífica

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Até deve dar gosto estudar aqui…

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Sala de leitura: Linda, linda, linda…

Já caída a noite, acabei por sucumbir ao cansaço e no regresso ao Cairo já só pensava no quanto tinha acertado em conhecer esta magnífica cidade. Que nos faz esquecer que estamos no Egito, mas que não renega na sua vivência diária o país onde está inserida. E apesar de restar pouco da sua antiga magnificência, a época áurea e alguns dos seus vestígios ainda estão lá… para quem os queira conhecer.

Informações úteis:

Pilar de Pompéia

  • Situada no bairro Karmous, em Alexandria
  • Entradas diárias
  • Preço: 20 LE (2,20€), Novembro de 2012

Anfiteatro romano de Kom al-Dikka

  • Situada em Sharia Yousef, Alexandria
  • Entradas diárias
  • Preço: 20 LE (2,20€), Novembro de 2012

Palácio Montazah

  • Montazah está situada a 18 quilómetros a este da cidade
  • Entradas diárias
  • Preço: 6 LE (0,66€), em Novembro de 2012
  • Não é permitido entrar no palácio

Forte de Qaitbay

  • Situado na Corniche de Alexandria, em pleno local onde estava o antigo farol
  • Entradas diárias e pagas

Mesquita de Abu al-Abas Mursi

  • Situada no bairro otomano da cidade (Anfushi)
  • Entrada gratuita

Biblioteca de Alexandria

  • Situada em Shatbi
  • Aberta das 10 às 19h entre Sábados e Quintas e entre as 15 e as 19 horas às Sextas. Horários mudam no Ramadão.
  • Preço de entrada: 10 LE (1,10€), Novembro de 2012
  • Bilhete não permite entrar no Museu das Antiguidade, na Sala dos Manuscritos Raros, no Museu de Ciência e no Planetário
  • Para contactos e marcações de visitas: visits@bibalex.org ou então +(203) 4839999 Ext.1573/1574

NOTA: A foto que consta no cabeçalho não é minha e como tal os direitos são reservados.

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About Desporto: viajar

Jornalista de profissão, devorador de viagens por paixão. Sempre que me quiserem encontrar, vou estar por aí.

2 responses to “Egito: Dia 9 – Alexandria, da prosperidade ao declínio”

  1. Boia Paulista says :

    Olá.. Tudo bem? 🙂

    Seu post foi selecionado para a #Viajosfera, do Viaje na Viagem.

    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Natalie – Boia Paulista

    Gostar

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